terça-feira, abril 08, 2008

Canto - problemática da selecção e aprendizagem

Mais do que em qualquer outra área, o conceito de talento é amplamente utilizado no domínio do canto, sendo frequentemente evocado como critério de selecção e avaliação. É especialmente utilizado como factor discriminatório aquando da determinação de quem deve receber instrução ou como justificação para o insucesso. Assim, é importante examinar a validade deste conceito, compreender a sua verdadeira dimensão.

Howe et al. (1998) afirmam não haver uma base sólida que corrobore a teoria do talento e salientam a importância da prática e a sua forte correlação com a aquisição de um elevado nível de performance. Estes autores, bem como Hallam e Prince (2003) alertam ainda para o papel fulcral da motivação neste processo: “todos os jovens intérpretes, mesmo os considerados pelos seus professores como muito talentosos, precisam de ajuda e encorajamento, de forma a manter os níveis de prática necessários para alcançar a excelência”.

As experiências anteriores são consideradas por Howe e os seus colaboradores como facilitadoras da aprendizagem. Já Kodaly defendia que a educação musical se inicia no período intra-uterino. No seu artigo, Bannan (2000) demonstra como as experiências na infância são determinantes no processo do desenvolvimento vocal. Todas estas investigações sugerem que o ensino do canto se deve iniciar muito antes da maturação vocal, trabalhando aspectos expressivos, criativos, alertando para a importância dos mecanismos extra-vocais no canto, etc., e assim facilitando mais tarde todo o trabalho dependente da maturação de estruturas fisiológicas. Para além das dimensões de competência musical abordadas no estudo de Hallam e Prince (2003) é necessário sensibilizar o aluno para a importância do desenvolvimento de várias competências (não só vocais), para a multi-disciplinaridade necessária para a adequada formação de um cantor.

O modelo de desenvolvimento vocal proposto por Bannan (2000) é manifestamente interessante, na medida em que explora o canto como algo intrínseco, como um processo criativo (ou generativo) do próprio indivíduo. Mais do que a procura da adequação a objectivos estabelecidos culturalmente, o canto deve surgir como manifestação natural da capacidade humana para a música.

Hallam e Prince defendem que a competência musical é universal, tal como Bannan afirma que “o acto de cantar emprega um mecanismo físico que trabalha eficiente e eficazmente fora do controlo voluntário”, isto é, todos somos dotados de “uma capacidade genética de cantar bem” (Bannan 2000: 298). Esta investigação faz-nos reflectir sobre os actuais métodos de avaliação e ensino, voltando-nos para as teorias de Kodály, Orff ou Gordon, não só na perspectiva de que todos os indivíduos têm aptidão para a música, mas sobretudo no sentido em que deve ser dada a todos a oportunidade de ter uma educação musical completa.

Raquel Camarinha - Aluna de Canto da Universidade de Aveiro (Excerto do trabalho escrito de Didática I, Janeiro 2008)


Bibliografia Usada

Howe, M.J.A., Davidson, J.W. e Sloboda (1998) J.A., Innate Talents: Reality or myth?, in Behavioural and Brain Sciences

Hallam, S. e Prince, V. (2003) Conceptions of Musical Ability, in Research Studies in Music Education, 20(2), 2-22

Bannan, N. (2000) Instinctive singing: lifelong development of ‘the child within’, in B. J. Music Ed., 17(3), 295-301

1 comentário:

Gesiel disse...

Achei todo o conteúdo deste blog muito interessante. A pouco estava lendo um artigo escrito por Sérgio Figueiredo onde ele defendia a formação pedagógica de regentes de corais, pois a maioria dos cursos de formação de regentes, especialmente o q conheço na UFRGS, tem formação apenas para balcharéis na área, ignorando a quantidade enorme de coros amadores onde coralistas são selecionados por seu "talento" sem a oportunidade de aprender sobre o ato de cantar. A pedagogia e as técnicas de aprendizagem são importantes e devem ser familiares ao regente para que ele possa transmitir com eficiência as informações necessárias à compreensão musical

abraço

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